15 de agosto de 2008

Nada Além



Por que as coisas me doem tanto?Talvez por eu não ser capaz de esquecer. De me esquecer de qualquer tipo de lembrança, seja ela boa ou má. Será meu karma as lembranças, a memória? Quando digo memória não é tão só apenas a visual, mas também a auditiva e principalmente a sensitiva. Ou se não por ter medo de enfrentar essas memórias, tanto passadas quanto as futuras, de encarar algo novo, tenho pavor do novo.
Também há a minha imaginação, fértil, maluca, frenética e perversa comigo própria. Esta que só me diz coisas más, só me faz maldades, só me mostra horrores. É um mundo de coisas, de traumas e temores.
Eu te perguntei se você queria mesmo ir, claro que sabia que você não queria ir, mas eu perguntei isso a fim de que você disse-se que sim, por pura piedade. Piedade de mim. Eu precisava que você fosse. Isso tudo porque no fim eu sempre preciso de algo, de alguém. Tão incapaz.
Você desconfiou, achou algum truque meu, achou que talvez fosse um teste, ou alguém mesmo que não quisesse que você fosse. Você está ficando igual a mim, cheio de melindres e desconfianças. Mas sabe que agora acho que talvez você estivesse certo, de uma forma indireta, sem saber estava fazendo sim um teste, a fim de atestar a minha insuficiência. Então era isso, foi isso, é isso. Eu, tão incapaz de ser só. Mas sempre capaz de desconfiar sozinha.

6 de fevereiro de 2008

São Teus



Ninguém disse que seria fácil ou difícil, isso ficou ao seu critério. Todos os dias são sentidos de formas diferentes e muitos de forma estranha. Nesses dias sinto falta de uma droga maior, talvez o ópio de Pessoa, não sei. Não acho bonito ser eu, ou se parecer com algo que careça eu. Não sei o que posso dizer quando você me questiona na minha imaginação: todos os dias sou entrevistada. Estou morrendo, mando um sinal, mas ele é em vão. O mundo parece não notar meu aviso de socorro. Talvez eu devesse mudar minha técnica. Ah mudo, mas as coisas continuam mudas. Pinto as unhas a fim de me sentir mais feminina, a fim de que elas não quebrem, a fim de que algo em mim possa ser notado. Eu não sou notada, exceto por mim.
Não sei me ver, não sei como me vejo. Já tantas coisas escritas; tanto tempo perdido; tanta saliva gasta; tanto amor esvaziado; tanto nada crescente. Eu sei o que mais quero, mas não sei como lhe dizer isso. É que me falta coragem, coerência e palavras: momentos, falta-me momentos.
Não dormi bem a semana toda, pensei, não quis pensar, tentei bloquear o que me é imposto. Não consegui. É uma falta de forças. Será o fim? Tenho tanto medo de estar louca, de ficar louca, dessas que mal pode se reconhecer no espelho e que serve apenas para ser piedade alheia. Tenho medo de ser coitada. Até meu medo está cansado de ser. Eu preciso dar um jeito, o quero fazer, mas não o acho, não o sei, não o entendo. Eu não quero, eu não suporto mais minha tristeza nata e meu medo de perder tudo, menos de perder a mim.

21 de janeiro de 2008

Mais um dia sem ninguém

Como é bom estar sozinho
Sem ninguém no meu caminho
Como se eu fosse eremita
Ou tivesse naufragado

Sem disputas no escritório
Sobre certo e errado
Sem barulho de TV
E como é bom gritar

Mais um dia sem ninguém
Nunca me senti tão bem
Mais um dia sem ninguém
Pena que vai acabar

Benção, sorte ou maldição
Agradeço a condição,
De estar sozinho estar melhor
Que mal acompanhado

Até parece que é recalque
Ou um disparate
E pode mesmo parecer
Mas é tão bom gritar

Mais um dia sem ninguém
Nunca me senti tão bem
Mais um dia sem ninguém
Pena que vai acabar

Pena que vai acabar...

Mais um dia sem ninguém
Nunca me senti tão bem
Mais um dia sem ninguém
Pena que vai acabar

Mais um dia sem ninguém...



Deprimente Sacha, deprimente

8 de janeiro de 2008

Tell 'em that God's gonna cut 'em down

A velha casa, com seus mesmos hábitos e derivados. Com as suas velhas formas erosivas e as mesmas histórias já passadas. Com todos os seus cômodos comuns, suas vestimentas comuns, seus jeitos e olhares comuns. A mesma e velha construção de quase 11 anos atrás. Não tão velha no papel, mas que para mim já está cansada, a casa.


Não quero esperar por mais nada, mas irei. Parece-me que esperar é destino comum de todos os meus erros. Parece-me que a fragilidade comum das coisas e cores repletas pela casa é que me enguiçam, fazem com que continue a esperar. Pois é a casa que me enraizou e não me deixa mudar, partir. Foram sem tempo os meus pertences, minhas lágrimas e talvez alguma lembrança. Não creio que a culpa da minha espera e não mudança seja tão exclusivamente minha e só minha. É a casa. A casa com seu 12 no canto esquerdo indicando, por assim dizer, seu nome. É a casa com toda a sua indicação e suas coisas e coisas e coisas – quanta coisa.
Quando me mudar, já faço mil planos, mas talvez morra aqui – tudo menos isso. Morrer nessa casa de sombras, barulhos e velhos vizinhos, a mesma vizinhança, não me cabe. Ah, não me cabe. Posso até jurar que nela sinto-me quase que sua prisioneira, sinto-me vigiada por uma casa sem vigia. Dá calafrios. Mas espero.
Corto os cabelos, os coloro, mudo de hábitos, estilos, tom de pele, tamanho, voz. Mas a casa permanece estática. Um dia talvez ela se torne uma quase que saudosa lembrança. Mas em quanto isso não ocorre, espero. Espero um avião cair, a música estourar as janelas, um ladrão invadir, alguém morrer – espero. Tomara que me mude para uma casa cujo nome seja 11. Nossa, mas como seria feliz em uma casa assim. Já até pensei em trocar o 2 pelo 1 aqui em casa. Mas pensei em todo o transtorno que eu iria causar ao carteiro e etc. Desisti. Talvez não importe o que haja, “I’m still right here”.

22 de dezembro de 2007

Estou de partida, João

A vida que poderia ser e não foi
Os amigos que poderiam ser e não foram
O ar que poderia ser e não foi
A música que poderia ser e não foi

O meu repleto ditado de coisas claras
Que poderiam ser e não foram

Meu canto, meus dedos, minha letra
Tudo agora faz parte de mim
Tudo o que poderia ser e não foi
Tudo o que foi e poderia ter sido
Tudo o que não deveria ser e é
Tudo o que tudo diz ser e é

Antes fui pequena, agora sou mais velha,
Ainda jovem, porém.

Os fatos postos e escritos à mesa
São meros devaneios da vida
Que pudera ser e que não foi e que foi.

A parte disso,
Parto da vida sem mais o que esperar
Ou ter
Parto sem deixar casa,
Terra, navio ou cão
Parto para meu despertar
Parto para poder descansar

O que foi, foi
E o que há de ser não tem problema
Vou-me embora para qualquer lugar
Que me sirvam silêncio,
Poucas pessoas, comida farta que não engorde

Fico aqui sem ficar por aqui
Estou de partida

15 de dezembro de 2007

Sem cor nem chão

[sem revisão]



Pelas experiências não vividas, imagino as dos outros: é horrível. Quase que não durmo, nem como, nem vivo: só imagino. Em um mundo avesso aos meus critérios selecionados recrio passagens bíblicas dos seres humanos que me cercam e quanto mais próximos pior será. Não vou de branco pela rua, mas sim com todas as cores de forma desuni forme. A massa que me cobre é negra quase opaca que me envolve, não dia ou noite, é um tempo estranho a mim, é tempo. Minha imaginação dos fatos vai além, imagino todos os cenários, personagens e feições: é mais um pesadelo que começa. Faço de conta não saber o fim ou o começo, mas o sei. O meio, o meio é que não me sai da mente. Parece-me que é intrigante o fato, perturbada, repugna, não entendo, até pena sinto. Não precisava, foi desnecessário. Por que não em esperou? Então pronto, era só ter me esperado que nada houvesse de existir todos estaríamos bem, mas não. A vida não é assim, toma tua realidade como dada aceita a chama que arde na mente. O cérebro é mesmo máquina incessante que não se contenta com as desgraças. Imagina mais, vá além. O pior é que sei que quase sempre a imaginação é pior que o real. Não me contenho, quero, mas não consigo. A mente trabalha sozinha pode ser dia, noite ou tempo aquém de mim. Finjo não sabe de nada quando me distraio com outra coisa a fim de esquecer. Banal. Recurso mais que banal adotado por uma banalidade da vida: ela mesma.
Quando se nota a áporia puxa e dá comida pro bicho que cresce em mim, afim de que dessa forma, mais racional, consiga dar fim ao flingimento. É tarde, é cedo, a qualquer hora, qualquer pessoa, qualquer lugar. É mais que músculo involuntário é outra vida em mim com poderes próprios, os quais eu não posso suportar e conviver. O conflito do eu e o mim, ou o conflito do eu e o outro? Vai rápido, corre que quebro tudo o que sinto, não vejo como se passam as coisas, embora as veja dentro de mim. Erro e peco no meu português porque leio pouco. Mas tudo bem, já sei falar. Áporo mesmo, é ser eu dentro de mim sendo outro alguém fora do eu. Complexo não é o que digo, mas sim a máquina ativada na mente, essa mente alheia a mim que imagina as coisas sem que eu peça. É uma assassina em série que existe e eu nem sabia. É uma difamadora-usurpadora que existe e ninguém me contou.
Vou de cinza pela rua branca. Nada me olha, nada me quer ver ou ser. A mente se acalenta, perde força, quer desmaiar, abortar missão. Talvez seja uma sinapse acontecendo, ou o fim perto do meio. É o cabo do começo. Esfacelo-me. Tenho 11 dias para decidir, se viver é melhor que imaginar, se imaginar é pior que ser ou se ter é pior que tudo e viver não é ser nada.

17 de outubro de 2007

(In)felicidade Clandestina

>>Escuta: Far Away Boys - Flogging Molly


Toda a minha beleza e possibilidades resumem-se as minhas frustrações diárias. Nem toda a observação do mundo me faria deixar de ser isso. Tudo o que sou. Agora eu posso sentir e deixo que você sinta também; que tudo irá permanecer igual, de alguma forma diferente. Não sei a primeira palavra que aprendi a dizer, nem ler, nem escrever. Não me lembro bem de muita coisa. Mas sempre estou esperando algo: minha vida, meus amigos, as atitudes internas e externas. Sempre estou esperando como um milagre semi-impossivel. Você me entende?
Eu fui deixando que tudo passasse lentamente por mim: sou fraca e não sei dizer não e sim. E todas as vezes que cantei pra dentro, com medo que os outros ouvissem, matava um pouco mais de mim. Não sou: estou. Não me ensinaram a amar, nem a chorar, mas sempre fiz questão de fazer essas duas coisas de forma excessiva. Comprei mentiras a fim de crer que comprava verdades feitas por mim. Olhei-as e desejei-as como uma amante secreta (talvez a seja). Todos os dias, um pouco por dia, morro, nasço, procrio e me despeço. Faço isso como se fosse algo natural do meu cotidiano. Mas sempre que me dou por conta disso e noto o quão absurdo isso pode ser me arrependo de ser eu e logo estou morta novamente.
Meu egoísmo tem cheiro de arrependimento e falta de leite materno: não sei ser amada. Quero apenas amar sem ninguém que possa me atrapalhar. Não aprendi a correr rápido, mas apenas andar para que assim minhas mentiras sempre respingassem em mim: me sujei muito.
Ainda vivo sem me sentir, ainda vivo por viver e por morrer. Ainda vivo para reviver, ainda sinto que quero viver por viver. Não escolhi ser assim, mas foi com o passar do tempo que tracei minhas rugas, meus motivos e minhas frases feitas. Foi diariamente que aprendi a fazer e desfazer. É difícil me dar com centenas de pessoas dentro de mim. Isso eu sei.
Pensar ou não pensar? Eis a questão.
Não pensa. Alberto Caeiro sempre teve razão: sempre foi um homem são. Sempre foi um dos meus ídolos: mais uma fantasia. Eu quero que sempre que lembrar de mim, lembre-se do meu sorriso torto, do meu nariz ligeiramente grande, dos meus olhos pequenos, da minha alma poluída e do meu olhar capaz de dizer tudo e nada ao mesmo tempo: sem piscar.
Não pisque, porque acaba.




22 de setembro de 2007

É Tempo / Não Faz Assim

É uma vida, é um tempo, um tempo indeterminado que eu não sei contar. É uma força, um fato, um carro, um pasto. Passa. Eu falo da vida, da morte, de Maria e Alfredo. Falo das casas, das cascas, dos escritores, da escrita e de mim. Falo das coisas como são, como deveriam ser e como nunca serão. Falo de como não sei dizer o que gostaria.
Não falo das coisas pra mim ou por mim: sou as coisas.
Num círculo de fogo vicioso eu vivo sem saber se vivo ou finjo. Falo, faço, canto, respiro e parto.
Vomito de bile, pasto seco, mundo curto, gente curta.

“É tempo de partido
É tempo de homens partidos”

Falo e me calo. Como recorte de jornal: sou. Re-fabrico e re-edito o dantes dito. Sou reprise repetida dos meus eus oblíquos. Me fito de lado, tiro foto, vejo o perfil. Saio: a boemia não é tão amiga. Eu gosto é de gente pouca, fala baixo que criança dorme dois continentes depois. Falta água lá, sobra aqui: falsa ilusão.
Escrevo o dantes lido. Não sou escritora de fato, só reproduzo o meio. Reproduzo minha síntese. Sou, estou e escrevo o meu meio, todas essas minhas horas e minutos.

“Meu partido,
É um coração partido”

Falta saliva para gritar
Falta oxigênio para sintetizar
Inspiro
Unnnnnn
Expiro
Uuuuuuu:
Fico com dor de cabeça
O mundo gira
As vacas são mudas
O dia é curto
E ninguém liga

Passo, repasso, revejo o tempo e perco mais: não crio mais nada. Nada se cria. Original em mim só a cópia. A cópia que ninguém leu os originais. Me asfixie, me fure, me machuque. Me pegue forte, me arraste, me chupa, me mata. Diz que me odeia e que me mata se eu piscar.

-Sussurra, fala baixo
-Quero gritar mulher, você não presta. Merece mesmo é morrer!
-As criança dorme, não grita. Me bate, me mata, mas não grita
-Eu grito porque você é uma vaca
-Não grita que só eu preciso ouvir, as criança não
-Cala a boca muié! Agora você vai aprender a me respeitar!

O mundo não quer ser concertado, mas eu não quero que se desconserte mais. Não mente que é feio. Não mente. Não me diga mais verdades porque dói. Não morre que machuca. Não transa que mata. Não xinga que é falta de educação. Fica mudo mulato burro. Fica mudo mulher feia e pobre. Fica muda loira gostosa. Fica mudo, criado mudo, muda a muda. Não mundo, não muda.
Abafa o bafo seco de álcool do mundo. O mundo quer álcool, agora todo mundo quer. Me dá mais, me dá mais, me sacia. Me dopa, me joga: quero mais álcool.

O mundo quer álcool
Todo mundo quer álcool

O tempo é de nada. Pasmes. É tempo de piada maldosa e fútil, tempo de contar moedas vergonhosas. Tempo de mísseis, terror, terror, terror. Contei pra você que mais um país foi invadido você nem ligou. Contei das flores mortas que nasceram, ninguém leu. Pó de todo o tipo: pó cinza, pó branco, pó preto, menos pó marrom, esse não é visto. É tempo de rir do outro e não cuidar de ti. É tempo de se cortar e dizer que foi o outro. Não faz assim homem, não faz assim ser humano, não faz assim. Te ajuda e não reza. Se cala e não reza. Não chora por machucado de moto, chora por teus irmãos. Não faz assim mulher, não faz assim ser humano: não segrega, não dissipa, não faz assim. Não mata seu próximo como forma de matar você: inconsciente. Não faz assim, não seja assim: vá além, seja Deus.

20 de julho de 2007

Eternidade

Como o céu que vai do laranja ou azul mais escuro beirando o negro. Eu vu tentando me ajustar a vida que não em pertence. Vou buscando caminhos e porquês para que tudo seja mais calmo. E não é por não saber as resposta que deixo de me questionar. Todo o ser humano é feito de coisas e mais coisas. É feito de tudo e nada.
Quando eu era bem pequena e brincava na rua eu me sentia a dona da rua, me sentia dona de mim.Agora com quase 65 anos, me sinto dona de um apartamento e nada mais. Apenas sinto o vazio e o peso dos meus 65 anos. Vou dizer com clareza, maior que a de antes, que sempre que seguro mais um lágrima que se joga dos meus olhos, eu sei que mato em mim mais uma Clarice.
Depois de tantos anos a única coisa que ainda me deixa nervosa ao ver são os livros. Fico observando a minha pequena biblioteca particular cheia dos livros que admiro e gostaria de ter escrito. Fico-os fitando com orgulho por serem meus e com raiva de mim por não estar ali na estante junto a eles. E em cada instante que isso ocorre, mais uma Clarice morre dentro de mim.
Já são 70 anos e ainda vivo. Nunca pedi para passar dos 60 e já estou com 70. Nunca rezei para que Deus me desse mais tempo: deve ser por isso que ainda vivo. Acho que talvez ele esteja esperando meu pedido de desculpas por todos esses anos de negligência: ele que espere deitado.
Nesses meus 70 anos vi e vivi o mundo da imaginação e realidade-imaginária. Fiz parte da geração que ajudou a destruir com orgulho e cautela o seu redor. Faço parte de um time que foi engolindo pouco a pouco cada gota filha que restava. Eu fiz parte dos últimos seres que viram uma lâmpada ascender, faço parte da última parte de mim.
É só no fim que voltamos às origens. É uma pena que tenha de se esperar o fim, eu quis tanto isso no começo.
Hoje, muda e falida, sei que quando morrer a vida acaba e com ela, eu junto irei. - Será o meu melhor sono – eu que nunca dormi o quanto desejava. Logo eu meio Clarice meio Lispector que perdi os dedos na guilhotina por contar ao coração sobre a alma que ela não existia. Eu que fui queimada pelo meu padre predileto por ler, ler, ler, ler, ler. Eu que junto ao mundo gritei socorro em 1970 e só chegou reforços no próximo século, sei o quanto ainda dói viver. Sei.
E foi assim que descobrir que os anos não são contados através da nossa data de surgimento prevista, e sim, por saber o que deve ser feito e fazer. Por também saber o que deveriam ter feito e não fizeram. Por compreender todos os erros antigos, cometidos ou não, e não mais cometê-los. Nossa idade é contada de pai pra filho e não por anos.
Assim que morrer, peço que me deixem do jeito que estiver. Que fique intacta do jeito que sou. Se a vida já não existe mais, se o que conheço e reconheço como vida já não mais existe: que queimem os livros e folhas de papel e que todas as máquinas de escrever e canetas sejam afogadas; porque eu já não me dou mais pela a falta de tais instrumentos. Se não posso contar a vida, porque ela já não mais existe; se só posso contar da morte, que nunca mais conte sobre nada. A única habilidade que tenho, o único desejo que me motiva, é contar as utopias. Se nem isso posso mais, que me deixem como estiver, queimem e afoguem o que tiver de ser. Eu já não sou mais: nem animal e muito menos, racional.



>>Escuta: Tears and Rain - James Blunt

14 de julho de 2007

Abre - Olhos

>>Escuta: Wake up Alone - Amy Wine House
















Não é por achar o mundo errado
Não é por discordar das coisas serem do jeito que são
Mas é por saber
Que tudo o que mereço
Não receberei em vida
Nunca sentirei o que mereço

É por saber que os bons morrem cedo
(O que é muito bom
Eu bem sei)
É por ter a consciência de que sou mais um gênio da miséria
E que se for para ser alguém
Serei um cadáver com medalhas

Mas o difícil é me convencer
Todos os dias
Que devo viver
Devo viver para morrer
E devo morrer para ser
Alguém a que as pessoas respeitam
E ainda mais
Alguém a fazer a diferença

Talvez eu esteja embriagada de filmes
E vivo um
Talvez esteja debulhada em livros
E seja um
Mas zero, por cento de alguma coisa
É porque serei
A verdadeira Inês de Castro

22 de maio de 2007

Todas as cores são marrons

Há vezes em que acordo e vejo meu corpo ainda estirado à cama. Parece-me que morri sozinha, quando noto no segundo seguinte que uma multidão transborda de mim: eu sou tudo e nem sabia.
Estou além de minha auto-compreensão, além de tudo o que vejo e quase sinto sabendo que nunca senti. Mas ainda assim vivo das sensações que nunca senti, nunca hei de tocá-las, e mesmo desse jeito vou degustando uma-a-uma. Dor é querer crer no presente e este erro juro não cometer, como quem jura se matar na segunda-feira bem cedo. Se fosse fácil escolher viver todos os dias, eu nunca acordaria. A felicidade está na dor do ter de sobreviver por fraqueza paradoxal. E a mentira está em crer que só um time ganha e que Deus te escolheu em meu lugar. Juro te perdoar se você partir, pois se ficar juro-te também me vingar por dentro.
Se flor não pode ser verde, amarela, roxa e lilás de uma vez só eu também não preciso ser e nem querer. Por que procura todas as cores em mim? Eu só posso te dar um preto e branco fora de foco e contexto. Um montão de conhecimentos pequeninos porque boa em nada sou: também não sou boa em amar. Meu amor é sem foco e objetivo, meu amor é disperso e tem vida própria, não é meu: eu que me apropriei de tal.
Se eu te disser uma coisa, promete não contar? Promete ser só de mim pra você? É que um dia desses vi um pedaço de terra descoberto. Sem nenhuma plantinha a ocupar. Aquele marrom todo descoberto. Pensei comigo: está ai, marrom, cor de terra virgem que ninguém gosta e só é associado com aquela outra coisa que excretamos. O marrom merecia mais respeito. Nunca conheci alguém que gostasse de marrom: por que ninguém gosta de marrom mais do que de outras cores? ...acho que a única cor que reflito é marrom. Percebi agora. E olho fixa à minha pele. É verdade, sou marrom e nunca havia notado. Sou marrom e nunca tinha contado a ninguém; sou marrou e nunca me pintei marrom; sou marrom e nunca me vangloriei por isso; sou marrom e vivi uma vida inteira tentando ter todas as cores, menos marrom. Talvez tenha sido isso que tenha me tornado marrom. Vai saber. Engraçado, agora pensando assim sobre o marrom... O animal que mais gosto é cavalo e a maior parte deles (pelo menos é o que eu acho) são marrons. Acho que no fundo sempre me identifiquei com eles e nem sabia que era pela cor. Agora que sei que tenho a cor do animal que mais gosto, farei questão de me lembrar todos os dias desse fato. Mas não diga isso a mais ninguém, às vezes podem achar estranho. E de críticas estranhas já estou bem arranjada.

- Pode-me trazer mais um café Elis? Eu aceito de bom grado.