22 de maio de 2007
Todas as cores são marrons
Estou além de minha auto-compreensão, além de tudo o que vejo e quase sinto sabendo que nunca senti. Mas ainda assim vivo das sensações que nunca senti, nunca hei de tocá-las, e mesmo desse jeito vou degustando uma-a-uma. Dor é querer crer no presente e este erro juro não cometer, como quem jura se matar na segunda-feira bem cedo. Se fosse fácil escolher viver todos os dias, eu nunca acordaria. A felicidade está na dor do ter de sobreviver por fraqueza paradoxal. E a mentira está em crer que só um time ganha e que Deus te escolheu em meu lugar. Juro te perdoar se você partir, pois se ficar juro-te também me vingar por dentro.
Se flor não pode ser verde, amarela, roxa e lilás de uma vez só eu também não preciso ser e nem querer. Por que procura todas as cores em mim? Eu só posso te dar um preto e branco fora de foco e contexto. Um montão de conhecimentos pequeninos porque boa em nada sou: também não sou boa em amar. Meu amor é sem foco e objetivo, meu amor é disperso e tem vida própria, não é meu: eu que me apropriei de tal.
Se eu te disser uma coisa, promete não contar? Promete ser só de mim pra você? É que um dia desses vi um pedaço de terra descoberto. Sem nenhuma plantinha a ocupar. Aquele marrom todo descoberto. Pensei comigo: está ai, marrom, cor de terra virgem que ninguém gosta e só é associado com aquela outra coisa que excretamos. O marrom merecia mais respeito. Nunca conheci alguém que gostasse de marrom: por que ninguém gosta de marrom mais do que de outras cores? ...acho que a única cor que reflito é marrom. Percebi agora. E olho fixa à minha pele. É verdade, sou marrom e nunca havia notado. Sou marrom e nunca tinha contado a ninguém; sou marrou e nunca me pintei marrom; sou marrom e nunca me vangloriei por isso; sou marrom e vivi uma vida inteira tentando ter todas as cores, menos marrom. Talvez tenha sido isso que tenha me tornado marrom. Vai saber. Engraçado, agora pensando assim sobre o marrom... O animal que mais gosto é cavalo e a maior parte deles (pelo menos é o que eu acho) são marrons. Acho que no fundo sempre me identifiquei com eles e nem sabia que era pela cor. Agora que sei que tenho a cor do animal que mais gosto, farei questão de me lembrar todos os dias desse fato. Mas não diga isso a mais ninguém, às vezes podem achar estranho. E de críticas estranhas já estou bem arranjada.
- Pode-me trazer mais um café Elis? Eu aceito de bom grado.
13 de março de 2007
P&B
Era ela e o resto. O resto: um vagão cheio do metrô no sentido Corinthians-Itaquera já tarde da noite. Ela: uma moça bonita, bem vestidos de cabelos pretos, curtos e presos posta a chorar. O resto: amigas conversando, criança chorando, homens falando de futebol, gente séria lendo ou só querendo parecer má. Ela: um ser humano que chorava sem que o resto a notasse e isso lhe doía mais.
Ela poderia chorar por tantas coisas, por que chorava a moça? Seria uma morte? Ou seria então o tema mais aparente: o rompimento de um relacionamento? Havia momentos em que ela cansava de chorar e tentava se refazer. Passados nem dois minutos se punha novamente aos prantos. Chorava sem escândalo, sem caretas, apensas as lágrimas saiam e os olhos ficavam mais avermelhados e a cabeça se abaixava. Após duas ou três estações depois da Sé um rapaz sentado próximo tirou de dentro da mochila uma Bíblia e lhe entregou. Ela logo de cara recusou e ele insistiu alegando que a moça precisava mais e faria melhor uso dos escritos que ele. Ela após alguns sorrisos tímidos e agradecimentos com culpa, abriu o livro logo que o rapaz se foi. Abriu em qualquer página. Logo começou a ler e chorar de novo, mais e mais. Não se sabe o que lia não se sabe por que chorava sem desespero e sem fim. Não se sabe por que chorou mais ainda ao ler aquelas palavras.
Logo chegava ao seu destino. A moça guarda o novo presente, se levanta e parte na estação Tatuapé. Vira mais um resto. Não há mais destaque. O resto permaneceu resto. Com remelas, espirros, risadas altas, conversas indecentes e gente má.
27 de fevereiro de 2007
Vai uns picos?
>>Pensa: Vacinas sucks
>>Sente: Picadinhassss
>>Sonho do dia: Ser a Bela Adormecida
Oba, vamos tomar vacinas. Eu sabia que até onde lembrava de minha pequena existência nunca havia tomado vacinas e suspeitava quando minha mãe dizia que sim. Hoje soube o porquê. A última vez havia tomado uma vacina foi em 91, eu tinha dois anos. Sem contar que das oito vacinas que se toma até um ano de idade eu só havia tomado três. Boa média, não?
Então lá vou eu em direção ao posto de saúde que fica a um quarteirão de minha casa cuja todas as pessoas que trabalham lá me conhecem desde que eu não tomo vacinas.
A médica ficou impressionada de como eu ainda possa estar viva, poderia já ter morrido de tétano ou algo do tipo. Ela só sabia dizer: Essa não é uma carteirinha de vacinação comum, não é. Segundo ela nunca tinha visto algo tão vazio. A frase mais cômica foi: Vou dar a da Hepatite B, é muito importante, por causa da transmissão sexual. (Pff..)
Ta e lá fui eu. Duas no braço direito e outra no braço esquerdo. Não que doa, porque de fato é só uma picadinha que nem incomoda muito, mas agora, o pós vacina é chato. Essa droga arde, sabiam? Arde mesmo. E daqui um mês eu volto.
Aventuras radicais! Uhullll
12 de fevereiro de 2007
Uuuu...
>>Pensa: Odeio espinhas
>>Sente: Espinhas?
>>Sonho do dia: Não ter espinhas nunca mais!
Cry, Cry, Cry
Com cautela, olha fragilizada o céu. Quando criança sua inocência era de mulher. E agora que já é quase uma, sua inocência é de criança que ainda mama e é dependente. E ela tenta crer no futuro, mas ele ainda não se fez. Logo, tenta se manter no presente, que insiste em fugir. E como tijolinhos cruzados e com desenhos detalhados seus segundos vão sendo traçados. Nada apareceu de novo. Nada se criou. Nada descobriu. E ela foi se descobrindo com o vento que vinha. Nada era voluntário. Agora já tinha um pouco mais de toque nos dedos e unhas feitas. Mas ainda era com ansiedade que esperava a vida se tornar vida. Ainda era com desprezo que contava seu nome. Como já nada mais esperava tudo se tornava diferentemente do antes. Era feito música enlaçada que ela olhava, e disfarçava: como pianista inventor.
Tocava em cada objeto como instrumento novo: como se a cada toque saísse uma nota nunca antes ouvida. E assim ela se fazia sozinha. Como em uma melodia sem fim e contínua, sua anti-vida seguia.
Debruçou-se na janela. Viu a nuvem negra e carregada aproximar-se do Sol radiante. E viu que em um instante tudo poderia mudar: o vento era forte. Havia pedaçinhos do céu livres onde só se via o azul do bebê que nunca teria. Então era ela: nua na janela e sem nada para prever. Sem previsões de tempo bom ou ruim. De suas mãos saiu um leve suor que fez deslizar um pouco: logo o vento secou e lhe arrancou mais um pedaço que lhe cobria. Sentiu o cheiro do cachorro que nunca vira, mas que sabia que existia na casa ao lado. O imaginou: tamanho médio, fora de forma, cansado, pêlos grossos e lisos e embaraçados; sujo, muito sujo.
Logo após ter feito o retrato do cão em mente pensou em como gostava de errar e de como não gostava de quando não a deixavam errar. E principalmente se fizessem de forma brusca. – Oras como iria se descobrir assim? Logo, era só ela, seus pensamentos desconexos, vento, nuvens negras, sol radiante e um cachorro sujo. Essa era a paisagem de seu presente. E como construir a paisagem do seu futuro sem elementos? Ela até poderia criar em mente mil sensações: todas passageiras. Não era do que precisava ou gostaria. Precisava de visões concretas. Não poderia viver seu futuro, por mais que o imaginasse, não iria vivê-lo. Tudo se fez real no mento dessa breve percepção. Mas logo a sensação de sossego passou: outra pergunta lhe veio – Quando iniciaria o futuro? Oras, já era pensar de mais. Já eram graves essas questões medíocres. Cansara-se de mais naqueles instantes inertes. Apenas amoleceu o corpo que foi caindo suavemente sobre a cama. E lá, adormeceu, sem que notasse que o futuro se fazia presente.
11 de fevereiro de 2007
Deixa vir a moça
>>Pensa: Coisas, cosias, coisas...
>>Sente: Boca machucada pelo aparelho fixo
>>Sonho do dia: Fazer 17
Aos 18
18 coisas para pensar e sorrir
18 assuntos para se refletir
18 fatos para não esquecer
18 motivos para viver
18 amores para lamentar
18 confissões para perturbar
18 problemas para se solucionar
18 amizades para se preocupar
18 mentiras para desvendar
18 dores para cobrir
18 angustias para sofrer
18 causas para ganhar
18 refeições para degustar
18 aromas para sorrir
18 escritores para seguir
18 filosofias para questionar
18 olhares para entender
18 nadas para viver.
10 de fevereiro de 2007
+ 1
>>Pensa: Um segundo
>>Sente: Uma vida
>>Sonho do dia: Não usar aparelho
O caminho das formigas
Há formigas por tudo, por toda parte.
Há formigas no tapete
Na mesa, na sala de estar;
Formigas nos livros
Nos pratos e dicionários
Elas andam,
Fazem seu rastro para que outras saibam
Que por ali essas patinaram
Há formigas nas camas,
Por entre os lençóis
E as paredes infiltradas.
Fui às observando na escrivaninha
Olhei escondida todo o seu trabalho:
Árduo e doloroso.
Vi sua força e seus métodos
Fiquei senssacionalizada
E perplexa
Cada uma delas, tão organizada
E claro, objetivas
Formigas são sábias
Principalmente as que estão
No meu achocolatado
*Neste poema há neologismo
8 de fevereiro de 2007
A Maldição... que nem é tão maldita assim
Eu não tenho manias ou vícios (até onde sei, ou me lembre) e nem bilhetes na geladeira. Logo, só me resta dizer as coisas favoritas que por sinal são realmente muitas ao contrario do que muitos possam imaginar.
- Ouvir música
- Cantar
- Escrever
- Jogar papo fora com os amigos
- Comer chocolates
Sem muito que explicar. É, foi simples!
E claro, não está na ordem porque eu seria incapaz de classificar.
Como sempre por ser muito boa ninguém precisa fazer o mesmo.
3 de fevereiro de 2007
One more time
>>Pensa: Preciso ler mais
>>Sente: Coçeira no braço direito
>>Sonho do dia: Pintar
Não são uma, nem duas, nem três, nem dez. É mais de mil, talvez um milhão de coisas que não compreendo. Algumas não me perturbam, já outras tento decifrar, muitas vezes sabendo que provavelmente nunca obtenha laudo satisfatório.
Não compreendo o porquê do mundo, e isso não ligo. Não compreendo o porquê da vida, isso também já não me importa mais. Não entendo o porquê da maldade, do desamor e da falta de sinceridade. E isso sim me incomoda. Talvez me incomode por saber que não sou eu quem vai “arrumar” essas coisas; ou talvez porque eu sei, no fundo da minha pseudo-sabedoria, que deve ser assim por motivo nenhum. Passei a desprezar os motivos pelo qual a vida se torna ela. Passei a viver pela vida, já que ela não vai ser feita só. Vi que maldição todos tem e são aprisionados por suas mentes que não chegam a ponto algum: Que não foge do que vemos. Notei sentindo no tecido que cobre meus esqueletos que provavelmente não precisamos de um por que, ou um motivo maior.
Andei pensando que precisamos de coisas para gostar e desgostar, para que possamos escolher e fazer com que esse peso de viver se torne mais leve. Não me importa mais a vida, ou a morte. Não importa mais coisas que vejo de superfície. Só me importa o fazer, o ser, o estar. Só me resta fazer o que achar melhor em cada momento sem se esquecer do passado. Que o futuro não existe. Que ninguém além de você mesmo vai lembrar do passado ou dar valor a ele. E que todos somos perfeitamente normais. E essa é a parte mais chata.
Existem uns que crêem em Deus, Deuses, coisas, energias, outras vidas, forças, mal, bem, verdade, mentira e Nada. Eu me encaixo na fileira do Nada. E nada tenho a dizer sobre isso. Porque isso é só isso e não tem do que se explicar.
1 de fevereiro de 2007
Oras, veja bem, meu Senhor
>>Pensa: O Rafael Magalhães me cansa!
>>Sente: Cansada?
>>Sonho do dia: Praia. É, ainda não saí dessa
Não a esperava quando apareceu. Era ela toda molhada e ácida. Era meu pranto de mil anos. Era ela: chuva. Que sozinha já era arte bela, mas com o mundo a lhe enfeitar ficava ainda mais completa. Naquele dia não era a primeira vez que caíra. Assim também não era a primeira vez que me acordara antes que dormisse. Mesmo com minhas dores de ouvido pude apreciá-la. Lembro-me agora com susto de todas as nossas aventuras.
Da vez que a senti quando voltara da escola. Em uma das raras vezes que voltara por conta própria. Eu sorria e tentava beber daquela água divina que caía tão espalhada. De como ficara iluminada de tocá-la. Me olhavam na rua que eu fazia questão de andar bem no meio. Admiravam-me, mesmo sendo garotinha que eu ainda era. Não sei bem ao certo quantos anos já completara, mas devia ser por volta dos 12 ou 13.
E como qualquer ser humano que se preze tem minhas histórias de chuva em conjunto. Dessa vez estara na escola. O sinal já havia sido tocado para que saíssemos. Estara muito calor, quente mesmo. Já era horário de verão, apesar desse ainda não vigorar: o verão. Então ela entra em cena. A bela chuva. Meio quente também, escassa, mas muito graciosa. Era nossa famosa chuva de verão: rápida. Caiu e molhou não só a mim, mas também minhas amigas. Estonteamos-nos nas águas da chuva breve, que traz tantas felicidades e histórias.
29 de janeiro de 2007
200
>>Pensa: Ainda bem que existe o Koelho que também gosta de Strokes
>>Sente: Dores na coluna
>>Sonho do dia: Praia :D
Preciso e tenho tanto a dizer,
no em tanto não sei bem o que tenho tanto a dizer. Ainda não me descobri por
completo. Vou me descobrindo por partes e membros. Como bicho que nunca se viu antes. Vou me descobrindo curiosa porque nunca vi nenhuma parte antes e não entendo de onde elas vieram. Nunca ouvi falar de algo assim: nunca visto.
Sinto-me sujamente pura. Um puro tão perturbador que muitas vezes tira meu sono leve e tão necessário. Quero dizer com intenção alguma: Não há motivos concretos para esse meu desespero. De certa forma até há, mas não parece tão intenso. Ah, como sou fraca. Até pareço gato recém nascido, que ainda está tonto do parto. Fico algumas horas em silêncio para ver se me descubro assim. E continuo a ver Nada. Fico tentando desvendar de forma trágica e estúpida meus amados seres vivos. Não sei bem dizer se é coisa terrena o que vejo ou apenas
interplanetária. Fui criada para ser moça recatada, mas parece que a receita deu o oposto. Criei minhas próprias vertigens, meus próprios bloqueios e medos.
Minhas felicidades, verdades e sensações. Nunca fui dona de mim. Assim como
ainda não sei em que ponto exato existo. Ainda não me descobri. Apenas estão
descobertas as mãos. E é de onde vêm todas essas sensações: das mãos. Mais
nenhuma outra parte de meu corpo fora de forma foi descoberto. As pontas dos
dedos dos pés começam a querer sair, mas os pressiono para que voltem ao calor. O que tenho a dizer é um pouco mais do que as pessoas costumam ouvir e isso me dá calafrios. Porque quando os seres (esses que convivo) não estão acostumados
com algo... Oh, Deus, que coisa horrível que é. Eles quase apedrejam. Parece que não gostam do novo, mas parece que gostam menos ainda do estranho ou atípico. Quantas pessoas ainda ficarão para trás graças a esse desprezo? Quantas pessoas a mais terei de provar para reforçar meus erros? Se erro é porque não sei acertar e nem o caminho do certo.
É, eu vi ao longe. Vi umas luzes, umas pessoas querendo ser o que não são convictas de que são. Vi música alta. Porque ao contrario do que muita gente pensa, música é vista. Música é vista, ouvida, sentida, tocada e tudo o que você possa incluir. Vi tantas bobagens e vivi besteiras sem fim e nem ponto de partida. Fui tão malcriada quando criança que até parece deboche dizer essas coisas depois de grande.
Quando ela continua a analisar seus defeitos de fábrica, ou ainda quando analisa seu manto é com boa intenção, pena não ter consciência de como isso a machuca. A auto-análise de Regina ia além de si. A matava por dentro todas as vezes que a fazia. No fundo talvez soubesse disso e por isso a fazia. A cada sonho fracassado derramava tantas lágrimas que poderiam inundar o Sertão de qualquer lugar. Se ela soubesse disso com certeza as teria usado. O peito dela doía, doía, doía.Nossa como doía. Doía porque seu coração era latente, latejante. Seu coração era muito maior do que o comum. Isso a trouxe problemas desde muito cedo. Mas ela não soube disso desde cedo. Foi saber de seu caso quando já tinha seus 45 anos e muitos calos nos dedos. Descobriu junto que essa doença era raríssima. Foi então que não parava mais de pensar: então, enfim, por que eu teria uma coisa rara dessas? Justo ela. - Parece que nunca queremos nada para nós. Mas ela não. Quando notou que se não fosse ela então outro a teria parou de resmungar. Preferiu sofrer ela, só ela, sozinha do que ter de passar essa dor a outro alguém. E isso pode ser interpretado sem mais nem menos. Porque isso não requer segundas interpretações, é apenas isso e só. Sua dor era só essa e só.
Ah, como Regina me cansava. Regina me esgotava, era completamente insaciável. Muito mais insaciável que uma criança de sete anos em pleno clímax de seu ser. Regina tinha dentro de si várias crianças de sete anos e mais um monte de outros garotos de 17: prontos para dar o bote. Mas ela, Regina, nunca dava bote. Mas estava sempre prestes a da-lo. Era algo raro vê-la se expor pelas ruas. Suas risada era calculada. Só exagerava em ambientes fechados e dos quais obtinha conhecimento. Mas sempre, sempre sorriso moderado. Não tinha nada a ver
comigo. Eu um rapaz quase homem, mas que nunca o seria. Regina sabia, ela sabia bem disso. Tanto sabia que me ignorava, tratava-me mal. Não mal ao ponto de me ofender, mas mal ao ponto de depois emendar uma de suas risadas quase que sarcásticas de tão econômicas. Regina se aproveitava de seu saber sem querer fazer mal, se aproveitava por inércia. Quando via já estava lá ela, jogada em sua propriedade de manipulação.
O gesto mais doce que presenciei de Regina foi um certo olhar. Olhar esse dado da última vez que a vi. Fomos nós e mais uns amigos antigos e apagados do colégio a um parque. Um desses parques grandes de São Paulo que a gente até se perde lá dentro. Bem, estávamos lá todos. Passamos o dia rindo, conversando, andamos de bicicleta. Regina sorriu muito aquele dia. Já era fim de tarde e eu bem sabia a paixão de Regina por fim de tarde e fotos – e eu sempre quis agradá-la, então levei minha máquina semi-profissional e a saquei no momento exato em que o Sol prova a Terra. Ela já havia notado meu movimento arisco desde o principio e foi sorrindo lentamente como criança que presente que irá ganhar um doce. Foi à única vez que a vi abrir um ângulo a mais em seu sorriso e isso ocorreu quando notou que era a tal máquina de tirar retrato. Tiramos alguns. Mas no fim, restava apenas uma foto para ser tirada. Ela, que sabia bem que com ela eu não podia. Olhou-me do pescoço para baixo e disse bem calma em tom moderado: o último retrato deveria ser meu, você não tem nenhum somente meu... E claro, como eu todos sabiam, eu era fraco. Ela se afastou de mim lentamente foi pisando na grama com seus pés macios sentindo cada milímetro de terra que vazava da grama. Ficou ali, em pé, no meio do descampado, com seu vestido leve de algodão caído sobre seu corpo íngreme. Estava ela lá, perto de um logo, ou lagoa, nunca descobri a diferença entre os dois. – Vá, tire o retrato, estou pronta. Foi nesse momento. Nesse segundo que ela olhou para
câmera. Foi à coisa mais doce que vi Regina fazer. Que olhar doce, quanta
falsidade de Regina. Ficou marcado no retrato seu olhar doce que nunca antes
havia lhe possuído. Como Regina era infame e me estonteava. Mas mulher de fato ela nunca foi e sabia, mas o saber dela era tão forte e destemido que temia
dizer-lhe que ela não era mulher, nem aos seus 25 anos. Já ela, abusava e se
lambuzava nas chacotas que me fazia, ela não tinha pena nem dó. Parecia insensível. Mas qualquer um que conversasse com ela por mais de dez minutos
descobria: era um recém nascido pedindo leite de qualquer tipo, só queria algo
para chamar de mãe. Ainda não entendo o que me prendeu tanto a Regina. Ela
nada tinha. Não era a mais bela e nem a mais inteligente da turma de história,
era péssima em datas. Ela também não era charmosa, pelo contrario, era tão seca, mas aparentava transbordar. Ela era puro falsete. Era a mais pura negação de existência ou condição para que tal existisse. Não há muito a que dizer sobre
ela. Era apenas Regina, um recém nascido preso no corpo de uma menina-mulher que parecia forte. Certa vez ela me disse: tudo o que parece é e tudo o que for só aparenta ser. Nunca entendi o que ela quis dizer exatamente. Acho que isso saiu de mais uma de suas auto-analises. Isso agora não importa. Regina que fique
enterrada no passado que insisto em reviver. Já que vida não me vem e vivo de
restos dos corpos que por mim passaram sem deixar rastro de volta. Vou andando como mendigo novo: completamente sem rumo e perdido. Não faz diferença entre ser e pertencer. Afinal, nada modifica o percurso final.
17 de janeiro de 2007
Justo
>>Pensa: Sabe-se lá
>>Sente: Pluma
>>Sonho do dia: Ficar olhando o céu
...E então é assim que continua. Faz mistério e procura dentro de ti tuas vontades e forças ocultas. Faz de mim nada além de mim. Falo sério quando digo que estou cansada, por tudo que vi e pelo o que sinto que virá. Estou bem no meio do caminho, disso bem sei. E quando digo meio do caminho, sinto isso porque me veio uma breve calmaria e sei que o pior vem agora: como um clímax. Sinto minha fé se propagando feito música boa: de forma lenta, mas definitiva. Vejo as pessoas cada vez mais distantes e isso é prova. Prova de fim de semestre, que avalia a força. Começa assim então um novo ciclo e uma nova metade. Essa por sua vez mais difícil e rígida. Tenho de ser mais rígida também, seguir as regras que não criei, mas vou aceitar, pois é assim ou sem sim eu fico no fim.
Avaliei todas as possibilidades de um escape. Mas moleza não há, fico para enfrentar. No fim talvez seja recompensada, mas isso eu não espero, porque quando o fim chegar já estarei calma, já não mais me afetará essas coisas que doem tanto. Fui catando pelas ruas uns palpites, só me disseram bobagens, só me mandaram pro desmanche. Não faço muita questão que gostem, nem sei se eu gosto, talvez só esteja me enganado pra depois ter desculpa.
Ah, quantas desculpas já arranjei pra mim e pro mundo. Quantas mentiras criei e fiz delas verdades para viver e vivo com elas dentro de mim. Faço das mentiras verdades para assim ficar mais forte. Antes de aprender que qualquer mentira pode ser verdade quando se crê de nela eu já fazia isso. Deve ser extinto de sobrevivência exclusivamente humano. Humano que mente. Já viu bicho mentira? Bicho é real, bicho sim sabe das coisas por não saber de nada, só faz e pronto. Não avalia. Alguns não enxergam, outros não ouvem, uns tem bico outros tem patas e mesmo assim nenhum olha mal pro outro. Bicho sim é humano. Porque se humano quer dizer “bom”, bicho é humano. E o dito humano é um bicho, se bicho quer dizer “burro”. Foi assim que aprendi. Não com alguém, mas sim pelo viver que esse ninguém me deu, simplesmente foi criado, sem mais nem menos. Tu vives, e sabe por quê? Não há. Ah, nem pense nisso, te juro que é injusto pensar nisso, como é injusto desgostar. E como é injusto crer no que tu não gostas.
Pronto. Já fiquei tonta. Uma das minhas doenças é essa. Ficar tonta à toa, quem quis assim? Ninguém: sou assim e pronto. Tenho isso por doença que começa sabe-se lá como e nunca termina, isso foi o que me disseram. Mas acho que se começa sem porquê deve terminar sem avisar, ou nunca termina mesmo, sei lá. Deixa ela, já faz parte de mim, absorvi e a acolhi como boa acolhedora que sou. Pensar te dói? Pensar me dói. Dói-me porque não pára e eu me canso de tanto pensar, me perturba isso antes de dormir. Faz com que doa o viver. E eu que nunca pedi vida e a mim ela foi dada me traz dor. Ah, isso sim também é injusto. Dor assim é ruim. Viver assim se torna ruim e mais intenso. Ser assim é mais real e injusto. Sabe, acho que não gosto da justiça.